Ações contra incêndios em favelas de São Paulo ficam no papel

22/10/2012 14:38, Por Redação, com Rede Brasil Atual - de São Paulo


No Recanto dos Humildes, hidrante dentro do quintal da residência vira
brinquedo para crianças
Comerciantes, moradores e líderes comunitários em pelo menos três
favelas em que a prefeitura afirma existir o Programa de Prevenção de
Incêndios em Assentamentos Precários (Previn) desconhecem ações
relacionadas ao projeto. Em nenhuma delas a Secretaria das
Subprefeituras treinou brigadistas, instalou hidrantes ou entregou
equipamentos de segurança, como prevê o programa.

Durante dois dias, a reportagem da Rede Brasil Atual percorreu as
favelas Jardim da Paz, em Perus, Heliópolis, na Zona Leste, e Alba, na
Zona Sul, e não identificou presença do Previn. Elas fazem parte de
uma lista oficial de 51 lugares contemplados pelo programa, elaborada
em março de 2011. A lista foi obtida com a prefeitura pelo Coletivo
Fogo no Barraco, por meio da Lei de Acesso à Informação.

- Nunca fui informada de nenhum programa nesses moldes – afirma a
vice-presidente da associação de moradores do Recanto dos Humildes,
Georgina Nascimento, bairro onde fica o Jardim da Paz. Simone
Fernandes, que faz parte da associação de moradores do próprio Jardim
da Paz, também desconhece o programa. "Já tivemos três incêndios aqui
e nunca ninguém nos procurou para implantação do programa. Se houvesse
com certeza saberíamos".

Em mais de uma hora de circulação pelo bairro encontramos apenas dois
hidrantes antigos. Um deles, completamente desativado, está instalado
no quintal da dona de casa Camila dos Santos, que vive há 14 anos na
residência. "Ele sempre esteve aqui. Já fomos na Sabesp e no Corpo de
Bombeiros, mas ninguém nunca usou ou se propôs a tirá-lo daqui. Não
tem nem registro".

Na favela do Heliópolis, região sudeste de São Paulo, a situação se
repete. O projeto, que seria instalado em uma região designada como
Gleba F, é desconhecido por moradores e por membros da União de
Núcleos, Associações e Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São
João Clímaco (Unas).

- Aqui em Heliópolis tem esse troço – surpreendeu-se Marilene Rosa,
uma das funcionárias da unidade da Unas na Gleba F. As colegas de
trabalho também desconhecem o programa: "Pode rodar por aqui que você
não vai ver nenhum hidrante, nem em viela nem em rua aberta", afirma
Silvia Melo dos Santos.

A favela Alba, que pegou fogo em agosto, também não possui ações do
programa, de acordo com moradores e comerciantes do local. Os líderes
comunitários Daniel Almeida e Marilene Alves afirmaram que há mais de
quatro anos houve uma movimentação para instalação do programa, que
não teve continuidade. "Eu lembro que teve um curso (para
brigadistas), mas acho que foi de malandragem. Só foi para encher
nome. Não vingou aqui não", afirma Almeida.

- Não teve hidrante nem extintor de incêndio. Acho que o curso nem
chegou a ser finalizado – suspeita o cabeleireiro Vicente Paulo, que
há oito anos trabalha na comunidade.

A Secretaria das Subprefeituras, responsável pelo programa, solicitou
que a Rede Brasil Atual envie os endereços das favelas em que o
programa não foi encontrado e se comprometeu a apurar porque as ações
inda estão desconhecidas.

Em funcionamento

Em duas das favelas visitadas pela reportagem, o programa foi
iniciado. A mais adiantada é a São Remo, no Butantã, onde 10
brigadistas foram treinados e receberam o diploma e os equipamentos de
segurança botas, capa, capacete, luvas e máscara de proteção, além de
extintor de incêndio e de um pó químico para misturar na água. Ainda
faltam hidrantes e mangueiras.

- A roupa é show de bola, bonita demais. O problema é a bota, que é 42
para quem calça 34! Me sinto o Ronald McDonalds com ela – brinca Laura
da Silva, uma das brigadistas voluntárias. Ela diz que entrou na
brigada para "ajudar a comunidade".

Foi a mesma vontade que fez Sueli Aquino também participar do curso.
Ela já colocou os conhecimentos em prática em um pequeno incêndio num
fio de eletricidade. "O fogo já tava passando para as árvores. Tinha
muitas crianças com suas mães e a primeira coisa que eu fiz foi
afastar todo mundo. Cinco minutos depois chegou o primeiro carro de
bombeiro com o tenente que nos deu o curso".

Na favela da Vila Prudente, que também pegou fogo em agosto, o
programa existe, mas os seis brigadistas treinados só receberam, até
agora, diplomas. "A gente cobra os materiais direto, mas ainda não
chegou. Já aconteceu um incêndio aqui e nós (brigadista) tivemos que
apagar com balde. A gente não tinha como se identificar para deixarem
a gente entrar no local", conta Maria das Dores Rodrigues, uma das
brigadistas. Ela lembra que eles têm o papel apenas controlar o início
do incêndio e de organizar a retirada das pessoas para evitar
acidente.

Animada e muito orgulhosa com a nova função, Maria conta os cerca de
R$ 600 que ganha mensalmente para fazer parte da brigada tem
sustentado a família, já que o marido está desempregado. A Secretaria
das Subprefeituras afirmou que a iniciativa ainda está em implantação
e que até o final do ano os equipamentos devem ser entregues aos
brigadistas.

Fonte: http://correiodobrasil.com.br/acoes-contra-incendios-em-favelas-de-sao-paulo-ficam-no-papel/533384/

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem